Sabe, eu sou uma pessoa compreensiva. Eu sei como deve ser difícil pra você ficar 2 horas trancado dentro dessa lata de metal no meio do trânsito infernal dessa nossa megalópole. Quando chove então, tudo tende a piorar. Eu sei, eu sei como é difícil estar aí dentro, com esse ar abafado sem poder abrir a janela, com a perna doendo de tanto pisar na embreagem e colocar a primeira pra andar apenas 50 cm. Eu sei também o quanto é horrível ficar mudando o tempo todo de rádio, porque elas insistem em noticiar sobre o caos da cidade ao invés de tocar aquela música que você tanto gosta.
Não pense que eu sou um ser sem coração só porque eu passo com o rosto encoberto pelo meu guarda-chuva quebrado tentando equilibrar a minha bolsa gigantesca e mais três sacolas, além de mim mesma, embaixo dele. E também não é porque eu ando devagar, desviando das poças e tentando não escorregar, bem lá no cantinho da calçada, com medo de que você espirre água em mim, que eu não vou com a sua cara. De fato, quando eu estou no metrô, dividindo o meu metro quadrado com mais 43 pessoas, eu realmente penso em como você deve estar sofrendo lá fora. E depois, quando eu estou no ponto, tentando enxergar o nome do ônibus que se aproxima em meio a multidão de guarda-chuvas na minha frente ou quando eu estou tentando calcular o momento exato entre fechar o guarda-chuva e subir no ônibus para não me molhar, eu não deixo de pensar em você. Quando eu vou atravessar a rua, então, e tenho que analisar o tamanho da enxurrada e dar aquele pulo generoso, tentando não molhar o pé, eu sinto você me observando.
Então, a próxima vez que eu passar na sua frente, digamos, enquanto você estiver seco e quentinho dentro do seu carro, embicando para entrar em um estacionamento ou, de repente, quando eu passar correndo pra atravessar a rua rápido, porque o farol vai demorar muito para abrir pra mim, vê se pára essa sua bosta de carro por 30 segundos, ou talvez baste apenas não acelerar que nem um filho da puta de merda, e me deixar passar, seu viado.
Atenciosamente,

